Nada a Temer, Brasil… nada a temer… [boa sorte]

Estcopacabana-hoje-2ava para escrever algo sobre o que se está a passar no Senado brasileiro. Mas enoja-me a forma como a palavra “Democracia” está a ser abusada. Ainda assim, vou escrever umas palavras. Menos, muito menos do que pretendia.

Enquanto via em directo, no youtube, a transmissão reparei naquele canto direito, onde caem as mensagens. Proliferam coisas como “mulher nunca mais” e “bolsonaro à presidência”. Sério?

A Dilma podia ter evitado tudo isto, sim. E neste momento o Brasil estaria em campanha presidencial. Temi o que está a acontecer. Temi o Temer. Por isso escrevi o que escrevi.

Não há absolutamente nada que justifique este Impeachment. A Dilma errou, sim. Mas não há a menor prova de que tenha cometido crime de responsabilidade. A argumentação da “pedalada” é uma aberração jurídica. E há uma enorme diferença entre “crime” e juízo político; e esse é o ponto.

Mais uma coisa, como é possível o STF ter decidido afastar o Cunha e ao mesmo tempo ter acolhido os seus actos, ao não dar provimento ao recurso do AGU?

Isto foi um jogo de futebol. Ganharam os homens de gravata.

“Amanhã”, tereis o Temer como presidente. E, de acordo com as elites, não há que temer o Temer. E, de acordo com a inacção de quem poderia ter evitado isto, também não.

A culpa é toda de quem nada fez, de quem não saiu à rua. Estes imbecis serão reflexo de algo. Escondam-se atrás dos muros e confiem na sorte.

Um desejo último, espero francamente que os amuralhados-favelados entrem em jogo. Afinal, quer as elites da foto, quer as elites da esquerda cega-muda-surda têm muros que cheguem para os proteger.

E talvez aí, com o povo a ultrapassar muros, a Democracia ressurja.

Boa sorte. Esta foi a minha última pedalada transatlântica.  Efectivamente, é assunto meu, mas que não vou mais tratar por esta via. Espero que a vossa cobardia, a vossa estupidez não se alastre ao resto da América do Sul.

“Amanhã”, insisto, o Temer será o vosso presidente.

Do Brasil e da emergência das eleições

juca_varella_-_jucavarellagmail.com_juca.varellaebc.com.br_agencia_brasil__TJl839FNem de propósito, comecei ontem a ver a série Marseille, que “será” a versão europeia do House of Cards. Uma coisa assevero, um e outro são fracas representações dos meandros da politiquinha suja de corredor, se comparados com a realidade brasileira.

Desde o primeiro dia que defendo que a Dilma devia ter encetado as diligências necessárias para devolver a voz ao Povo. Só há uma forma de impedir este fartar vilanagem das elites amuralhadas que andam de braço dado com uma espécie de evagelismo canibal, onde a “direita” vai buscar o discurso orgástico e orgiástico que pudemos ver naquela votação medonha. Só há uma forma de reerguer os únicos muros aceitáveis, aqueles que separam os três poderes. Há que marcar eleições, rapidamente e em força.

Dar a voz ao Povo. E sim, Povo engloba todos. Especialmente quem vive por detrás dos muros que escondem as favelas do Rio; muros erguidos para estrangeiro não ver, que os Jogos Olímpicos (vergonha!) estão à beira de acontecer.

Que não era possível haver eleições, diziam-me. Que a Constituição não permite. Afinal, não é assim tão impossível. Agora, depois de tudo voltar à estaca zero (leia-se “antes daquela vergonha da votação do Impeachment”), vamos ver se continua a ser possível o que antes era impossível.

Ou isso ou preparem-se para uma espécie de guerra civil urbana que rapidamente assumirá as formas convencionais e se estenderá por esse enorme Brasil. Exagero? Não exagero nada, tenho aí um quilómetro de muro que me garante a certeza. Falo do vergonhoso muro de Brasília, erguido para separar as forças em contenda, no dia da votação do impeachment. 

E agora esqueçam essa coisa de ser uma luta esquerda versus direita. Golpe e Contragolpe e Contra-Golpe-do-Contragolpe-do-Golpe. Já não há volta a dar, como não havia desde aquele primeiro dia. É uma luta entre a Democracia e o totalitarismo (da corrupção, da religião, dos condomínios fechados, dos muros tapa-olhos). Aqui em Portugal foi um “ai Jesus” pela legitimidade da Dilma. Que não podia haver eleições, que a representatividade estava intacta. E agora poderia falar do relativismo cultural e outras merdas que são por demais óbvias. Olhar o Brasil com óculos made in Europa não dá bom resultado. Claro que me podem e devem apontar o óbvio, que também eu sou português. Que padeço do mesmo mal, e que falar com um oceano pelo meio é fácil. Não, não é fácil. Mas eu, ao menos reconheço-o, eu tento tirar os tais óculos e pensar sem eles.

Há que marcar eleições. Tudo o resto vale zero, não convence e não resolve. E nem me falem da necessidade de uma paz podre até depois das Olimpíadas. Sério, mesmo? Olhem de novo a imagem. E, francamente, já nem sei se por esta altura as eleições resolvem. Sei que todo este resto que se apresenta dia-após-dia resolve porra nenhuma.

“Merda de Selecção”, versão bilingue

merda-geral-1413418475681Hoje, ou ontem, a propósito do racismo em Portugal, uma menina mulata dizia que se dava bem com todos. Como exemplo, foi buscar o bom relacionamento com uma prima sua que é “cor-de.pele”. E lembrei-me de quando gaiato pintávamos (eu e os meus coleguinhas), no papel, as caras dos meninos com lápis cor-de-pele. Passaram quase quarenta anos e vejo que a cor-de-pele continua a ser cor da pele de quem escreve este post. É só um facto, não vou sequer discorrer sobre ele. A dinâmica universal faz isso por mim. [PT/BR]

Não vou exigir um cartão de identidade que venha com todas as cores, de todas as peles. Isso seria ridículo. “Não faz o meu género”. Mas grave, grave seria eu dizer que o voluntariado só faz sentido em situação de pleno emprego. Isso seria um atentado, um tiro no pé, uma demonstração de ignorância do que representa a economia social, assente em grande parte no regime do… voluntariado. Seria simplesmente estúpido se não fosse perigoso, ofensivo e indecente. E a ignorância pode virar roleta russa. [PT]

É preciso mesmo que alguma gente ponha o pé no chão. Que pise o palco da vida-vivida. E quando digo pôr o pé no chão não me refiro ao que ontem, por questões de trabalho que me mantiveram acordado até tarde, eu vi naquele parlamento brasileiro. Câmara baixa não é Câmara baixaria. E em democracia alguma se vota assim. Um de cada vez, em que o resultado acumulado condiciona o voto seguinte. Quando Deus e a família e a torcida do Flamengo são invocados como argumento, algo vai muito mal. Valeu a cuspidela do Jean Wyllys no fascista do Bolsonaro. Eu, cidadão, faria tal e qual. De resto, não se aproveita nada. Mais duas coisas, num Parlamento estão os representantes do povo. Não percebi o que metade daquela gente ali fazia. Não percebi as bandeiras. Não percebi os gritos. Não percebi tanto ódio, preso no ventre há treze anos. Melhor, percebo mas não aceito. Quem perdeu não foi a Dilma (e sim, também eu mamo no Lava Jato), foi a senzala que ainda hoje é. Eram duas coisas, que eu queria dizer. Foram mais. E aquele muro, separador de opiniões? Não é por segurança, é a ditadura do medo, mesmo. Ah, e o Temer e o Cunha são uns filhos da puta que instrumentalizam a estupidez que alimentam para se inimputabilizar. Até agora, funcionou. [BR]

Adiante, ao reino podre dos Panama Papers. Que acredite quem puder. Não quero com isto significar que nada se aproveita. Relembro, porém, que os maiores offshore são “inshore”. Os States, a Suiça. Os tempos desta saída do “maior leak de sempre” (e aquele não leak interno aos “donos da voz da papelada” são uma manobra de diversão). Por certo que bildenberg existe, por certo que o chefe de um dos media tuga abençoados com a revelação se acautelou, e aos seus pares, antes de o cano rebentar. [PT/BR]

Mais uma coisinha. Hoje morreram afogados mais de quatrocentos refugiados. Mas não usavam “cor-de-pele”. Valem cinco minutos de atenção, de acordo com os media que nos enfiam diariamente biberões de merda seleccionada — da melhor merda, portanto; “Merda de Selecção”. [PT/BR]

E “Merda de Selecção” é um bom título para este post. No dia em que nos cansarmos de placebos, teremos o necessário antídoto para toda esta merda. A merda não se faz sozinha e os merdas só são gente enquanto nós deixarmos. Meter esta merda toda na cabeça de todos os merdas que permitem esta merda é que é uma merda. [PT/BR]

Mil desculpas. Eu mudei.

Recebo a sua carta pós-despedida, recheada de algum remorso, se não muito, e fico me perguntando o porquê de tê-la aceitado das mãos do Willian, meu carteiro.

Comecei a ler pelo fim, onde se lê: eu te amei.

Deveria ter parado nessa frase, carregada de pesadas correntes atadas a enormes bolas de ferro, que me prenderão a você por mais uma vida ou duas, ainda não sei.

Não há crueldade maior do que a notícia de um amor que nasce morto.

Não há sensação maior de impotência do que aquela que sentimos frente às possibilidades de amor, precocemente abortadas. Sente-se o sangue escorrer pelas pernas e fecundar a terra, que um dia há de engolir tudo.  Fecunda a terra e esvazia o coração.

O Antídoto

Se tivesse eu parado de ler nesta frase, não teria ficado sabendo que naquela noite em que resolvemos simplesmente deitar na grama e olhar as estrelas, você teve vontade de dizer que me amava. Lembro-me como se tivesse sido nessa madrugada e ainda consigo sentir o molhado do sereno nas minhas costas.

Você escolhe sempre a hora má. Está fazendo o mesmo agora. A hora passou, o tempo voou e sua oportunidade foi levada pelo vento.

Cada palavra que você escreveu nessa carta teria que ter sido dita na hora certa. Agora sou eu quem pede perdão por não poder mais dar o valor devido a elas.

Apesar do meu coração ainda estar de alguma forma atado, o resto está funcionando bem melhor. Clareza e intuição são exemplos disso.

Mil desculpas.  Eu mudei.

Monólogos prováveis

Epá, deixa-os estar, deixa-os roubar, deixa-os corromper e ser corrompidos, deixa-os aproveitar a real corrupção de um juiz também ele corrupto, deixa-os usar a desculpa do efectivo abuso dos media a soldo do fascismo, deixa-os usar o poder como escudo e lança, deixa-os em paz. O que interessa é manter a democracia, pujante e saudável.
 
[corta! o Brasil não vive em Democracia!]
 
– O que vem a seguir?
– Provavelmente uma ditadura.
– E preferes isso?
– Não, não prefiro. Mas não prefiro de todo um Estado sem direito e sem democracia.
– Um Estado sem direito e sem democracia? Então, mas isso é uma ditadura! E nós não vivemos em ditadura. Numa ditadura não há eleições.
– Não?
– Ok, há, mas são só faz-de-conta.
– Pois, lá está.
– Vais dizer que estas eleições foram só para disfarçar?
– Não, não foram. Mas a Dilma perdeu réstia de legitimidade no momento em que deu asilo ao Lula.
– Não concordo! E há mais uma coisa, uma democracia não vira ditadura.
– Jura! Tens a certeza?
– Mas como vai ser?
– Não sei, sei que não acredito em males menores.

Letras para um Brasil autofágico

De manhã, Lula não era Ministro. Entretanto, tomou posse, e virou Ministro. Depois, a tomada de posse foi suspensa. E o Ministro voltou à condição de Presidente. Não, não me enganei – nas gravações, todas ilegítimas, mas ora reais e factuais, ficou bem claro quem manda; e manda Moro e manda Lula e manda quem não foi eleito para mandar.

Entretanto, o juiz que suspendeu a posse, tinha uma página no facebook onde se mostrava claramente pró-impeachment. O Governo vai recorrer. Nisto, o Moro, que diz que é juiz, vai respondendo a notícias de jornal com despachos judiciais. A separação de poderes está completamente subvertida. O Lula assume, na escuta pós-detenção, que vai avançar com tudo contra a justiça em que já não acredita. E eu percebo, até entendo a rebelião (mentira). Mas não aceito a contradição (verdade). Ainda que perante a justiça feita partido político.

E sim, sou tuga, E sim, tenho tudo a ver com isto.

O Brasil tem tudo para ser feliz. E não pode resumir-se a estes donos disto tudo. O Brasil não é feudo do passado que Portugal lhes legou em futuro. E legou porra nenhuma. Aquele grito junto ao Ipiranga foi tão natural como a nossa sede.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente

É certo tudo o que é facto. De resto, sobra um imenso deserto de “chega desta merda!”. Há um povo para parir!

Perante este espectáculo, ninguém mais tem razão. Houvesse um botão de reset e eu nadaria o Atlântico para carregar nele. Mas não há.

E a solução está nos antípodas dessa guerra, em que todos matam e todos morrem. A solução, assevera a História, está nas pontes, não nos muros. Correr ao Planalto e queimar a Dilma, correr aos Tribunais e apedrejar o Moro e o Preta Neto nunca será solução. A solução não passa certamente por contar quem tem mais gente na rua.

Ou acabamos numa de “este país não é para gente”. Agoniados, vazados, vencedores derrotados. Ninguém, repito, ganhará batalha alguma. É que lutamos contra nós mesmos.

O que eu faria?, se pudesse? Marcaria eleições para ontem. Chega de intriga, chega de grampo, chega desse espectáculo autofágico. E depois, insistiria no que nos divide do caos. A Democracia, a Separação de Poderes.

Esta merda não é um jogo de futebol. A Democracia resolve; assim lhe dêem tempo e espaço.

Há um país urgente para reabilitar. E, oiçam; enquanto escrevi isto nasceram, aí, um milhar de meninas e meninos. Eles não merecem este legado. Renato Russo cantou que “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”. Renato, naquela letra dorida lá acima, não partiu espelhos. A exigência foi de um mundo saudável.

Ou então… Quiçá… Esqueçam… (e acabei de usar três reticências estéreis e formalmente erradas e mal colocadas; para que vejam o reticente que estou; como nos parágrafos seguintes).

Talvez o tal botão de reset esteja mesmo em queimar tudo e aproveitar as cinzas como adubo para criar algo de novo.

Ao contrário desses indigentes mentais que partiram a Democracia e pontapearam a separação de poderes, eu não sei nada. Moro (o oposto do que um juiz é), Lula (fuck you)… tudo farinha do mesmo saco. Reis de porra nenhuma. E Dilma, agora que as escutas são ouvidas (e ouvidas que estão, ouvidas foram; por mais que o Moro seja um filho da puta), és uma vergonha. Pára de pensar no “teu Presidente” (és ridícula), pára de pensar em como dar a volta ao texto. És uma dama num jogo de xadrez. Tens dono. As escutas saíram. Todo o mundo ouviu, Dilma. Marca eleições e sai de mansinho.

Terminando: sou visceralmente de esquerda. O Moro tem a desculpa de ser o vil que é (traiu o que se jurou). O Preta Neto teve os seus quinze minutos de fama. Vocês, Dilmas (atentai no plural), têm desculpa nenhuma. Traíram o Brasil, traíram a esquerda. Venderam-se por vinte e nove moedas.

E agora é que termino; o Che dava-vos um abracinho, agora, Dilmas. De urso.

Vem aí coronel

Não há especificidade alguma ou o que quer que seja que justifique ou desculpe a ida do Lula para Ministro. É uma sacanice e deve ser olhada como tal. E nem o facto de ele recorrer a isso para –imagino que seja essa a desculpa interna — fugir a uma “justiça” indigna e arruaceira (e sem dar de barato nos qualificativos que uso; embora o despacho que pretendia a prisão preventiva ande perto de uma aberração jurídica), justifica esta ignomínia.

Nada, absolutamente nada, desculpa esta fuga para a frente. Este empurrão com a barriga vai sair caro ao Brasil. E não será a esquerda ou a direita a pagar, mas o povo todo. Vem aí coronel. E depois, então, não haverá legitimidade para gritar que separação de poderes está a ser atropelada. Já o foi com aquele estuporado despacho. E o golpe final é este acto indigno e miserável. Lamentável.

O Brasil merecia bem melhor. Mas para ter melhor, há que fazer por isso. E parece-me que no Brasil, como em Portugal, tem muita gente que não está nem aí. O pior é depois. E esse depois é cada vez mais este agora.